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A herança dos antigos saraus
Reza a lenda que a serenata chegou à região serrana do Sul fluminense graças a professores de piano, violino e outros instrumentos trazidos por fazendeiros, que acabavam se arriscando em apresentações em praças e ruas, chamando a atenção da comunidade. Os saraus públicos de então acabaram se transformando no fenômeno atual, que atrai turistas do mundo inteiro.“Querem cantar apenas músicas antigas, mas o repertório sempre se renova”, defende o violonista carioca Eduardo Marques, de 59, que trocou a agitação do Rio de Janeiro pela tranqüilidade de Conservatória. Parceiro do violonista Zé Maria Ferr no projeto Matinata, que promove serenatas diurnas aos sábados, Eduardo admite: a renovação é algo complexo. “A serenata, na verdade, tem segmentos variados”, explica ele, observando que o egocentrismo característico do meio musical acaba impedindo a unidade. “Mas é fundamental mexer nisso”, prega, enfatizando que Conservatória tem 138 anos de tradição. “O essencial é que sejamúsica romântica”, acrescenta,lembrando que a diversificação é fundamental para não entediar o ouvinte.Dependendo das atrações que lá se apresentam, Conservatória – com população estimadaem 5 mil habitantes – costuma contabilizar até 15 mil pessoas nos fins de semana, graças aos visitantes. A serenata se tornou atração turístico cultural graças aos irmãos Joubert e José Borges de Freitas, que trocaram a vizinha Santa Izabel do Rio Preto (Serra da Beleza)pelo distrito de Valença.“Quem vem aqui está em busca do movimento serenateiro e seresteiro”, constata a professora Marluce Magno. Paralelamente às aulas do projeto Conservatória meu amor, ela mantém a loja de discos e livros Canto Lírico, concebida para fortalecer a identidade cultural do distrito.Na década de 1950, os irmãos Freitas assumiram a liderança da serenata, que percorre as principais ruas do distrito nas noites de sexta-feira e sábado, atraindo imensa legião de fãs. Nos anos 1960, eles criaram o Museu da Seresta e Serenata, na própria casa da família. A dupla organizou o acervo com livros, discos, partituras e documentos, que retratam o surgimento e o sucesso da serenata na região. Com a morte de José Borges de Freitas Netto, em 2002, o material foi transferido para a Casa da Cultura de Conservatória, onde os seresteiros se reúnem semanalmente, antes de partir em verdadeiro ritual pelas ruelas calçadas com pé de moleque. Cenário mais mineiro, impossível. Vale lembrar: as serestas são restritas ao ambiente familiar, além de restaurantes, hotéis-fazendas e pousadas da região.
Matéria do Jornal Estado de Minas de 29/08/2010
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